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28 jun
Artigos

Alergia à proteína do leite de vaca (APLV) e leite A2

Anna Carolina Maia jun 28, 2021 87

As alergias alimentares se classificam como uma reação adversa a alimentos (RAA) dependentes de mecanismos imunológicos e se caracterizam por uma hipersensibilidade do organismo à proteínas que são reconhecidas como antígenos após ingestão, inalação e até mesmo o toque e podem ter origem através de hábitos alimentares, amamentação, carga genética, sexo, idade, etnia, entre outros fatores.

Estas são consideradas um problema crescente de segurança de alimentos e de saúde pública e, sua prevalência parece ter aumentado nas últimas décadas, acometendo 6% das crianças menores de 3 anos e 3,5% dos adultos em todo mundo. As alergias alimentares afetam uma pequena parcela da população, mas suas reações podem ser severas e potencialmente fatais, levando a uma significante redução na qualidade de vida das pessoas sensíveis.

Mais de 170 alimentos foram reconhecidos como potencialmente alergênicos, mas apenas 8 estão envolvidos na maioria dos casos das reações alérgicas, são eles: leite, ovo, trigo, soja, amendoim, castanhas, peixes e crustáceos e esses são conhecidos como “The Big 8”.

Em especial, o leite, é produzido em larga escala no Brasil. Segundo o Anuário Leite 2020 da Embrapa, entre 1990 e 2019, a produção de leite cresceu 139%, enquanto o consumo aparente total subiu 131%. Leite, pode ser conceituado como produto oriundo da ordenha completa, ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas.

O leite de vaca contém cerca de 30-35 g de proteínas por litro, representado por 80% de caseínas e 20% de proteínas do soro. As caseínas possuem como frações proteicas a αs1, αs2, β, κ e γ sendo as mais abundantes a αs1 e β. Já as proteínas do soro possuem como frações proteicas a β-lactoglobulina, α-lactoalbumina, Soroalbumina bovina, Imunoglobulinas, entre outras.

Tais frações proteicas podem induzir a formação de anticorpos específicos em indivíduos geneticamente predispostos e levar ao quadro clínico de alergia alimentar. Em especial a α-lactoalbumina, β-lactoglobulina e a caseína, que possuem características peculiares que lhes conferem um alto grau de alergenicidade, pois são glicoproteínas, hidrossolúveis, resistentes à ação de ácidos e proteases, são termoestáveis e possuem peso molecular acima de 10 kDa.

Dentre as reações adversas relacionadas a este alimento se destaca a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), que acomete principalmente crianças de até dois anos.

A APLV se caracteriza pela reação do sistema imunológico às proteínas do leite desencadeando resposta imunológica mediadas por IgE ou mistas que resultam em manifestações clínicas específicas como: urticária, angioedema, dermatite atópica e até mesmo a anafilaxia. Sua prevalência na população em geral é desconhecida, estudos apontam índices que variam entre 5% e 15%. No Brasil, estima-se a incidência de 2,2%.

O tratamento dietético para a APLV consiste em excluir da dieta as proteínas do leite de vaca e também de outros mamíferos, como o leite de cabra e ovelha, em virtude da grande semelhança que há na sequência de aminoácidos na estrutura das proteínas presentes nestes tipos de leite, levando ao que é chamado de reatividade cruzada. Apesar da β-lactoglobulina, ter sido considerada o principal alérgeno do leite de vaca, estudos têm demonstrado que outras proteínas, como as caseínas por exemplo, também desempenham papel importante na APLV.

O mercado atual, os hábitos e necessidades dos consumidores induziram as indústrias à inovação, para conseguir acompanhar as tendências e atender às demandas de consumo que se renovam constantemente.

Assim, recentemente surgiu no mercado o leite A2, que segundo pesquisadores seria adequado para pessoas com alergia específica a β-caseína.

Mas o que seria o leite A2 e o que ele tem de diferente? Nos rebanhos de bovinos de leite, há três tipos possíveis de genótipos para a produção de caseína: as vacas A1A1, as vacas A1A2 e as vacas A2A2. Desta forma, as vacas A1A1 produzem leite contendo somente a caseína A1, as vacas A1A2 produzem os dois tipos de caseína e aquelas com genótipo A2A2 produzem somente a caseína A2 (Figura 1).

O leite A2 tem origem através do melhoramento genético de animais que se dá pelo cruzamento de touros com genótipo A2A2 e vacas com genotipagem igual. Desta forma o leite secretado pelas glândulas mamárias das vacas com este genótipo específico não possui a β-caseína A1 (que está presente no leite de vacas que possuem genótipo A1) que da sua hidrólise enzimática gera a beta-casomorfina-7 (BCM-7) responsável pelo desenvolvimento da alergia à proteína do leite.

Figura 1: Site Laticínios Fiore

Para a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) a remoção de uma das frações proteicas não torna o leite A2 hipoalergênico e apto para alérgicos, pois a pessoa é sensibilizada por múltiplas proteínas e não só por uma fração isolada.

É importante frisar que o leite A2 é isento da β-caseína, porém as demais frações de caseína e as proteínas do soro se mantém presentes, permanecendo assim o seu potencial alergênico. Sabe-se também que, devido às suas características químicas, as proteínas do soro se desnaturam pela ação do calor, porém, a aplicação de processos tecnológicos de alta temperatura não reduz por completo a alergenicidade do produto.

Portanto, entende-se que o leite A2 pode ser visto como uma inovação e uma oportunidade de mercado, mas não pode ser considerado apto para pessoas que possuem reações adversas ao leite, como a alergia e a intolerância. Torna-se necessário a realização de mais pesquisas e regulamentação para este tipo de produto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Escrito por:

Anna Carolina Maia

Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos (IFRJ) e Especialista em Gestão da Qualidade em Alimentação Coletiva (UFF). Profissional com ampla experiência no mercado de alimentação com foco em Segurança dos Alimentos e Gestão da Qualidade, com carreira desenvolvida na hotelaria em restaurantes de alta gastronomia e atuação no ramo de consultorias e assessorias em alimentação. A mesma também desenvolve pesquisas na área de alergênicos e é autora do livro “Manual de Orientação para Gestão de Alergênicos em Serviços de Alimentação”.

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