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O nosso bate-papo deste mês é inspirador e nos deixou cheias de orgulho! Convidamos a Prof. Dra. Tereza Ibrahim para nos contar um pouco sobre a Nutrição e ficamos encantadas! Nutricionista, Doutora em Bioquimica pela UFRJ, Tereza nos conta como descobriu a profissão, como enxerga o futuro da Ciência da Nutrição e deixa um importante recado para Nutricionistas e estudantes de Nutrição.
Atualmente Tereza faz atendimentos em seu consultório particular e é professora convidada da Pós-Graduação da “Escuela de Nutrición y Dietética” da Universidade de Antióquia, na Colômbia.

Como você iniciou sua relação com a Nutrição? Por que escolheu esta profissão e a área em que atua?
Foi em Londres, onde morei por quatro anos, que descobri o alcance da palavra Nutrição. Ao terminar o Ensino Médio, como era bailarina profissional e estava disposta a morar na Europa, fui buscar aperfeiçoamento técnico em ballet clássico na Inglaterra. Levei alguns meses para me adaptar ao frio e ao ritmo intenso de treinamento. Um dia, durante minhas compras de rotina, vi um livro de receitas com alimentos integrais bastante atraente e decidi comprá-lo. Na época, jamais imaginaria que aquele simples livro mudaria a minha vida. A partir de algumas mudanças no meu padrão alimentar, percebi que ganhava mais disposição física e força muscular. Isso me deixou encantada, pois meu rendimento nas aulas de ballet estava bem melhor! Voltei à loja e comprei outros livros, pois continuava curiosa em saber o que havia causado tamanha modificação em mim. E percebi que meu interesse pelo mundo dos alimentos era cada vez maior, a ponto de levar receitas e dicas para meus colegas bailarinos. 
Poucos anos depois, decidi antecipar o fim da minha carreira como bailarina para ingressar no Ensino Superior. Ao longo da graduação em Nutrição, interessei-me pelos mecanismos capazes de explicar a progressão das doenças crônicas. Não foi à toa que decidi fazer Mestrado e Doutorado no Instituto de Bioquímica Médica (IBqM), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde tive a chance de me tornar professora de bioquímica enquanto desenvolvia um modelo experimental para estudo da inflamação crônica, com camundongos. Hoje, trabalho como professora convidada da Pós-Graduação da “Escuela de Nutrición y Dietética” da Universidade de Antióquia, na Colômbia, ministro palestras e atendo em consultório particular.
Sua área de atuação hoje reflete o que você imaginava no início dos estudos?
Nem um pouco. Eu pensava em trabalhar com Nutrição Esportiva por causa da minha aproximação com a atividade física. Nunca me imaginei como professora de bioquímica. Inclusive, quando fui discente, não gostei da disciplina porque não fazia muito sentido estudar tantas rotas bioquímicas sem interação com os temas em Nutrição. Somente nos últimos semestres da graduação descobri uma bioquímica capaz de revelar as explicações que eu buscava, através dos livros que li na biblioteca da universidade (UERJ). Desde então, não consegui mais parar de estudar. Hoje, vejo a bioquímica ser muito mais valorizada, sobretudo em cursos de pós-graduação, o que me deixa bem satisfeita.
Como estamos em tempos de Covid-19, como a Nutrição pode ajudar as pessoas na prevenção e na recuperação da doença?
Uma alimentação individualizada e rica em nutrientes é importante em qualquer situação e acho importante lembrar que o sistema imune é extremamente complexo, agindo através de incontáveis diálogos entre células, órgãos, proteínas e outras estruturas. Com isso, não adianta pensarmos em um nutriente para aumentar o desempenho. Ainda não temos um protocolo capaz de garantir a prevenção da doença ou a recuperação dos pacientes, mas há inúmeros relatos científicos associando a necessidade de alguns nutrientes para a atuação de várias células do sistema imune. Por exemplo, estudos revelam a importância da ação antioxidante da vitamina E na manutenção da integridade da membrana plasmática das células e na modulação de enzimas responsáveis pela sinalização celular. O zinco participa da estrutura de mais de 3.000 proteínas do corpo e está associado ao desenvolvimento das células B. Não cabe aqui citar tantos exemplos, mas também destaco as vitaminas A, C, D, B6, B9 e B12 e os minerais ferro e selênio, além dos compostos resveratrol, curcumina, ácidos graxos n-3 e n-9. Sempre priorizo a ingestão de alimentos para obtenção de nutrientes, mas cada caso deve ser avaliado individualmente, antes da suplementação de nutrientes. Para além do foco em nutrientes, cientistas chamam a atenção para o excesso do peso corporal. Brevemente, o tecido adiposo de indivíduos obesos recruta uma célula do sistema imune chamada macrófago, a qual libera citocinas inflamatórias (TNF-alfa e IL-6), as quais podem corroborar com a chamada “cytokine storm” (tempestade de citocinas), observada em pacientes com COVID-19 em estado grave. Estes exemplos, entre tantos outros, servem para ilustrar nossa importante função na sociedade atual: manter os indivíduos o mais saudável possível em pleno período de quarentena, incentivando também a prática de atividade física, qualidade de sono e redução do estresse, já que esses são fatores influenciadores do sistema imune.
  Qual a experiência profissional mais gratificante que já teve até hoje e a situação mais inusitada?  
Tive várias experiências muito gratificantes e é difícil escolher entre elas. Posso citar um momento revolucionário em minha vida. Em 2012, fiquei muito contente com o lançamento do meu primeiro livro, Nutrição Experimental, tema inédito na época. A experiência foi tão rica que decidi escrever um outro livro, desta vez, para leigos. Intitulado O Enigma de Lia, foi lançado em 2013. Uma história de ficção com vários personagem do mundo da bioquímica. Na trama, o colesterol tem uma depressão incapacitante por causa dos humanos que o chamam de bom e de mau ao mesmo tempo. Daí, uma grande confusão acontece na vida de uma família por causa de Fígado, amigo e fervoroso defensor de Colesterol. Sempre disse em minhas aulas de bioquímica que não existe bom e mau colesterol. Pude finalmente levar esse conteúdo para um livro infanto-juvenil e desmitificar o assunto. 
Meu destaque de situação inusitada vai para uma experiência científica que realizei, ao longo do meu doutorado, com a equipe da então chefe da Medicina Nuclear Dra Léa Mirian Barbosa da Fonseca. Trabalhando com um modelo de inflamação, eu levava os animais para serem avaliados no Hospital Clementino Fraga Filho (UFRJ). Lá havia uma sala com um enorme aparelho de cintilografia. No centro da maca, eu alocava um tipo de cama de camundongo, feita com um pedaço de isopor, onde eu mantinha os animais anestesiados (um de cada vez). Como estes tinham de permanecer imóveis enquanto as imagens eram capturadas, eu fiz um tipo de respirador a partir da tampa de uma embalagem de remédio. Então, eu ajoelhava e segurava tal estrutura bem próximo ao focinho do animal e permanecia imóvel. Poucos minutos após o início do experimento, eu me surpreendia com inúmeras cabeças de pessoas amontoadas na entrada da sala, observando nossa experiência, provavelmente curiosas com aquela cena tão diferente. Bem, o respirador de camundongos foi um sucesso em manter os animais imóveis, mas eu não conseguia me concentrar olhando as cabeças amontoadas e começava a rir. Tivemos de refazer várias imagens até que não restou alternativa: fechamos a porta da sala. 
Como se sente ao ver a evolução profissional de muitos Nutricionistas que foram seus alunos?
Realizada e muito contente. Fico pensando, às vezes, na enorme responsabilidade de nós, professores, sermos exemplos, de sermos adjuvantes na construção do conhecimento. É muito especial.
Para você, quais serão as tendências da Alimentação e Nutrição para os próximos anos? Até onde a ciência da Nutrição pode chegar?
A Ciência da Nutrição deverá ser cada vez mais reconhecida, pois os relatos científicos sobre os compostos químicos presentes nos alimentos, os quais influenciam no processo saúde-doença, são amplamente estudados e divulgados. O impacto da nova pandemia no comportamento da sociedade deverá influenciar outros desdobramentos nutricionais. O consumidor ou paciente, além de se preocupar com a nutrição, cada vez mais personalizada e comprometida com um envelhecimento saudável, também terá interesse em saber onde e como os alimentos serão produzidos. Portanto, a segurança alimentar, nutricional e ambiental ganhará mais destaque nos próximos anos. Ninguém sabe ao certo até onde poderemos chegar. Mas a ciência nos alavanca para outro patamar. Em nossa sociedade, a alimentação de muitos indivíduos é pobre em nutrientes e rica em calorias, carboidratos refinados e proteína animal. Um padrão sustentável de alimentação visa aumentar a ingestão de vegetais e frutas e reduzir os desperdícios ao longo da produção. A biodiversidade também fará parte deste novo cenário. Neste aspecto, temos uma grande vantagem: o Brasil tem seis biomas em seu território e pesquisas já demonstram o valor nutricional de muitas frutas e plantas. Podemos ir muito além, mas dependemos também de nossos esforços pessoais e interpessoais.
Qual a sua visão em relação a Nutrição e redes sociais?

São inseparáveis. Vejo as redes sociais como uma ferramenta de trabalho utilizada por muitos colegas. No entanto, acho importante saber administrar as informações e a forma como as informações são transmitidas. Há alguns anos, as informações técnicas chegavam às pessoas através da sala de aula, entrevistas em jornais e TV. Atualmente, todo profissional tem o poder de transmitir informações sem o compromisso com a didática ou cientificidade, deixando muitos leitores bastante confusos. Em paralelo, o fácil acesso à informações midiáticas ricas em propagandas enganosas também levam as pessoas a correrem risco de danos à saúde. Então, precisamos alertar a população, além de informar.

Até que ponto a frase “você é o que você come” está correta?

Ao ler a pergunta, logo pensei em uma escala, mas não seria possível obter uma resposta confiável. Então, vamos a alguns dados: nossas células precisam de nutrientes e estes geram incontáveis informações à maquinaria celular. Se os alimentos modulam nossos genes e nossos sistemas, a capacidade de gerar saúde é tão grande quanto a de gerar doenças. Estudos científicos revelam dados suficientes para sabermos prevenir e tratar nutricionalmente inúmeras doenças, mas, de modo lamentável, nem toda situação é conhecida o suficiente para ser tratada. A resposta orgânica de cada indivíduo também não é exata, tampouco previsível, de modo que temos de lidar com a imprevisibilidade. Há ainda outras variáveis influenciadoras do processo saúde-doença, como radiação solar, estresse, microrganismo patogênicos etc. O que nos garante créditos (em muitos casos) é a estatística: com a adoção de um estilo de vida saudável, há chances muito maiores da vida seguir saudável por muitos anos. Com isso, a partir de boas escolhas, temos chance de viver mais e melhor.

 Qual o segredo para o sucesso do Nutricionista que atua na mesma área que a sua e quais os desafios?

Não sei se há um segredo para o sucesso, mas apostaria em criatividade, com base em conhecimento científico, aliando disponibilidade à tecnicidade. Como o mundo tem um ritmo muito acelerado de informações, acho importante investir em colaborações. Eu sempre gostei muito de ter meus colegas por perto e sempre peço ajuda quando me deparo com uma situação incomum. Tempo é um grande desafio. Driblar o tempo e as tantas ferramentas tecnológicas, sem deixar de ter um trabalho com qualidade, é um desafio. Outro dado preocupante em ciência é o viés de publicação (resultados tendenciosos), fato que nos faz perder tempo, pois temos de ler vários artigos sobre o mesmo tema para saber se a informação é confiável. Já tínhamos grandes desafios no enfrentamento da obesidade e suas consequências metabólicas, agora, a preocupação é muito maior. Portanto, é preciso saber otimizar o tempo e investir sempre em conhecimento.

Dê um recado para os seguidores da Nutriv que em sua maioria são Nutricionistas e estudantes de Nutrição.

Estude sempre, vale muito a pena! Acredite na carreira, pois é extremamente gratificante contribuir com a saúde e bem-estar dos indivíduos. Temos a capacidade de mudar a vida das pessoas, tornando-as mais fortes. Alimentação e Nutrição sempre foram temas centrais na vida do Homo sapiens (nossa espécie) e aquela nutrição baseada em prescrição de macro e micronutrientes para gerar energia e manter a vida ficou para trás. Temos demandas metabólicas complexas num mundo onde a população envelhece e convive com inúmeros indivíduos doentes. O padrão de alimentação dos brasileiros precisa mudar em quantidade e qualidade e isso gera demandas em logística desde a produção até a divulgação de informações sobre o produto gerado. Enquanto isso, o envelhecimento da população abre caminho para uma Nutrição voltada para estudos dos efeitos da dieta na saúde do cérebro e musculatura esquelética, fundamentais para garantir qualidade de vida. A divulgação de informações confiáveis através de mídias, treinamentos de funcionários, acompanhamento nutricional, seja em consultórios, empresas ou asilos, é crescente. Por ora, digo que temos muito trabalho a ser feito e precisamos de trabalhadores determinados e comprometidos com a vida no planeta. Então, pergunto: você vem conosco?
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